11/04/2011

O gênio e a lâmpada

Edição 1454 do Meio & Mensagem

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Eles estão por toda a parte: nos estúdios, nas redações, nos laboratórios, nas praças esportivas e muitas vezes fazem a vida mais fácil, mais bela, mais divertida. Sorte de quem pode desfrutar de suas criações geniais. E, quase sempre, azar de quem é condenado a conviver no dia a dia com a figura do gênio.
Recentemente, a Almap/BBDO, num anúncio revelador, declarou que sua performance nos festivais mundiais de publicidade nada tem a ver com os chamados gênios da criação. A agência, aliás, prefere nem criar o habitat para essa criatura tão admirada quanto demonizada porque sabe que, em algum momento, o gênio cresce, se agiganta. Pode ficar maior que as pessoas, que a agência, maior do que o próprio cliente e até mesmo da marca para a qual trabalha.

Tudo isso me fez lembrar os tantos gênios que, de vez em quando, cruzam o nosso caminho. Logo no primeiro emprego esbarrei em um do tipo sisudo, caladão... Poucas palavras,  muita autoridade. Nas reuniões, com quase todo mundo em posição de reverência, ninguém ousava dar pitaco. A questão era apresentada e então todos os olhares se voltavam para o gênio como se mirassem um oráculo. Ele franzia as sobrancelhas, coçava o cavanhaque, dava uma profunda baforada e a tensão na sala ia aumentando até que vinha o veredicto final. As poucas palavras, de fato, continham algo de mágico.  Vinham com tamanha carga de certeza, de conhecimento e, realmente, funcionavam. Só que tudo na empresa ficava parado, à espera de sua genialidade.

O gênio carrancudo é apenas um, numa fauna cheia de outros tipos bizarros. Há os falantes, os exibicionistas, os sofismáticos, os cheios de manias: alguns não suportam acordar cedo, portanto, jamais marcam compromisso pela manhã. Outros não aceitam ideias do time. E esses são os mais perigosos, porque acreditam tanto no próprio talento que esquecem o valor de um trabalho em equipe. E como gênios, claro, pouco se lixam para a agenda de trabalho e para o impacto do seu comportamento na rotina e na vida das pessoas à sua volta. São como uma fruta podre que contamina toda a equipe.

Mas há aqueles que realmente nos inspiram, que nos tiram da zona de conforto e que fazem a gente produzir coisas que nunca imaginamos que seríamos capazes. Sabem cobrar na medida certa, motivar na medida certa e depois parabenizar pelo resultado alcançado. Esses são os meus preferidos, porém raros de encontrar pelo caminho.

O mais estranho é que, quando o assunto é genialidade, dificilmente há unanimidade na mesa. O que pode ser um gênio para mim não é para meu colega. E aí fica a dúvida: qual é o magnetismo dessas pessoas que causam tanta admiração quanto repulsa?

É só transferir o nosso olhar para os campos de futebol. Ali os gênios crescem como erva daninha. Impõem mil condições ao clube, esnobam os companheiros de equipe, atribuem valor irreal a si mesmos. Viram um problema para o técnico, para o time, apavoram os cartolas. A intransigência beira o exagero. Já não é o campeonato que importa, nem mesmo o dinheiro. O que o gênio quer é espernear, tripudiar. E pronto. E, inacreditavelmente, a torcida adora.

Gosta somente porque não é obrigada a conviver com eles no dia a dia, dividir tarefas de trabalho e tampouco conviver com o seu ego. Por isso, cada vez mais acredito nos grupos que pensam e trabalham de maneira coletiva, nos ambientes onde as pessoas não se veem como excepcionais e, por isso mesmo, se envolvem até as entranhas para buscar dentro de si a melhor contribuição para um resultado comum.

Quando têm um desafio pela frente, elas não ficam simplesmente esperando a inspiração chegar, mas estudam, trabalham duro, testam fórmulas e, principalmente, trocam experiências e visões... Gente que sabe que insights criativos não caem do céu e que a lâmpada é apenas o símbolo visual de um pensamento intuitivo que precisa ser burilado exaustivamente até atingir sua melhor forma. Há que se ter algum talento, claro, mas sem transpiração e sem a admiração sincera de todos à volta dificilmente se chega a um resultado retumbante.

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Marketing


Herlander Zola

Gerente de marketing de automóveis da Volkswagen do Brasil


O gênio carrancudo é apenas um, numa fauna cheia de outros tipos bizarros. Há os falantes, os exibicionistas, os sofismáticos, os cheios de manias: alguns não suportam acordar cedo, portanto, jamais marcam compromisso pela manhã. Outros não aceitam ideias do time. E esses são os mais perigosos, porque acreditam tanto no próprio talento que esquecem o valor de um trabalho em equipe. E como gênios, claro, pouco se lixam para a agenda de trabalho e para o impacto do seu comportamento na rotina e na vida das pessoas à sua volta. São como uma fruta podre que contamina toda a equipe.


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